Não quero ser super-homem

Em 2Coríntios 4.7-15, o apóstolo Paulo descreveu a vida cristã de um forma muito real e bem diferente da que é apresentada por muitos em nossos dias. A vida cristã é um campo de batalha, é lugar de sofrimento, de transformação do caráter conformando-o ao caráter de Cristo (cf. Romanos 8.28 e 29). É lugar para gente de carne e osso que vive pela fé e poder de Deus.

Descrevendo a magnitude e beleza do Evangelho de Cristo e o privilégio concedido a ele de pregar essa maravilhosa mensagem, Paulo diz: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (v.7).

Para não cair no pecado de roubar a glória que é somente de Deus ao converter corações e transformá-los pelo poder do Evangelho, Paulo via a si mesmo como um “vaso de barro” e o Evangelho como o mais precioso “tesouro” que ele tinha, o qual só lhe cabia conte-lo dentro de si e transmiti-lo a outros, mas, sem com isso receber a glória para si mesmo.

A partir do v.8 ele descreve como vivem aqueles que têm como alvo obedecer, glorificar e exaltar a Deus por meio da pregação do Evangelho. Ele fala de tribulações, perplexidade (espanto, insegurança), perseguição, e abatimento. Sim, não se iluda, é possível passar por tudo isso enquanto você estiver seguindo a Cristo e cumprindo a missão que Ele lhe conferiu. Isso não se encaixa em nada com esse famigerado “evangelho da prosperidade” pregado por muitos que dobraram seus joelhos ao deus Mamon (deus pagão que simboliza as riquezas).

Bem, talvez neste ponto você esteja se perguntando se em seguirmos a Cristo teremos tribulação, espanto, perseguição e abatimento, qual a vantagem? Que diferença há entre viver com Cristo e sem Ele? Voltemos ao texto e vejamos.

“Em tudo somos atribulados, porém, não angustiados…”. O ministério apostólico de Paulo (e dos demais servos de Deus) sempre foi marcado por tribulações. Para um breve relato leia 2Coríntios 11.24-28. Sofrer por causa de Cristo não é uma opção que fazemos; é uma convicção que devemos ter em nosso coração. Contudo, em meio às tribulações não seremos consumidos pela angústia que pode muito bem ser descrita como “um aperto em nosso coração, uma sensação de esmagamento”. Deus não permite que Seus servos fiquem angustiados. Porém, se viermos a ficar angustiados diante das tribulações, devemos nos avaliar, pois, em algum momento deixamos de crer em Deus e no Seu cuidado para conosco. Sentir-se angustiado é um pecado, pois, nada mais é do que falta de confiança em Deus.

“…perplexos, porém não desanimados…”. Todos os dias somos tomados por espanto. São pais que matam são bebezinhos por motivos banais (se é que existe motivo justo para tal atrocidade!); são adolescentes e jovens cada vez mais sem rumo e esperança perdidos nas drogas; é a corrupção por todos os lados; são os falsos mestres ensinando coisas que contrariam a Palavra de Deus; é o estresse do dia a dia; os problemas familiares e financeiros, etc. Enfim, humanamente falando não nos faltam motivos para ficarmos desanimados. Mas, precisamos de um único motivo do céu para não desanimarmos: “Cristo Jesus, nossa esperança” (1Timóteo 1.1). O servo de Deus não se deixa vencer pelo desânimo porque seu coração sabe em quem confia. Ele não se deixa vencer pelo desânimo porque luta com a força e o poder de Deus. Ele não é um super-homem lutando com suas próprias forças.

“…perseguidos, porém não desamparados”. E por que ele confia em Deus ele atua neste mundo como um agente celestial, um embaixador de Deus. Embaixadores gozam da proteção de seus países, têm todo o amparo e respaldo de seus governos. Se isso acontece na esfera humana, que se dirá na esfera Celeste? Deus não desampara os Seus filhos mesmo quando estes estão debaixo da mais terrível perseguição. O crente não se sente desamparado pois sabe que este mundo não é o seu lar, nem seu país. Ele não alimenta nenhuma esperança neste mundo. É por isso que o evangelho da prosperidade não tem nada a ver com o Verdadeiro Evangelho de Cristo. O evangelho da prosperidade, do triunfalismo imbecil, faz o coração do homem amar o que é perecível e pouco se importar com o que é eterno. O evangelho da prosperidade não tem moral e coragem para afirmar:  “Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mateus 16.22). Tenho visto alguns fanfarrões roubando o dinheiro alheio e sendo presos em outros países por evasão de divisas dizerem que estão sendo perseguidos porque são servos de Deus. A diferença é que os servos de Deus que foram perseguidos por causa Dele nunca foram pegos com dinheiro alheio e ostentando riquezas extorquidas valendo-se da boa fé das pessoas.

“…abatidos, porém não destruídos”. Abatimento é uma triste situação que pode nos acometer em tempos de tribulação, espanto e perseguição. Mas a promessa de Deus para os Seus filhos é que eles não serão destruídos. A destruição é para o ímpio, para aquele que confia em si mesmo. Mas, o que confia no Senhor jamais será abalado (Salmo 15.5). É possível você ficar abatido, triste, “deitado por terra”, mas, jamais será destruído porque é Deus quem lhe sustenta e a ampara. O evangelho da prosperidade mais uma vez se mostra falho, pífio e mentiroso. Ele não dá espaço para homens fracos sustentados pela Graça Divina, pois, ele (o evangelho da prosperidade) é para super-homens, e super-homens não precisam de Deus; eles se bastam. Mas, eu não quero ser super-homem. Eu quero ser apenas um vaso de barro contendo o Tesouro Eterno. Quero apenas que a glória do poder seja de Deus e não minha.

No v.10 Paulo fez questão de mostrar que o que importava para ele era que Cristo fosse evidenciado em sua vida. Ele sofria por causa de Cristo para que Cristo fosse visto através de seu comportamento, e, assim, as pessoas fossem impactadas pelo seu testemunho e transformadas pelo poder de Cristo. Mais uma vez, o evangelho da prosperidade se torna falho e vazio, pois, Cristo não veio para transformar contas bancárias, cumular de bens materiais que nada valem diante da Glória Eterna. Como alguém disse com muita propriedade, se a igreja primitiva podia dizer “não possuo nem prata nem ouro, mas,o que eu tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (Atos 3.6), também é verdade que a igreja de hoje pode dizer: “tenho prata e ouro, mas, não posso fazê-lo andar”. Somente o Evangelho Verdadeiro pode fazer mortos espirituais ressuscitarem e firmar os coxos espirituais, afim de que seus joelhos não sejam mais trôpegos.

Rev.Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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