O Jeito Certo e o Jeito Errado de Lidar Com a Depravação Humana

 

Leia Sl 39

Quando corrijo as provas dos meus alunos vejo se a questão é dissertativa ou se é objetiva. Se for dissertativa uso de clemência e sempre considero o que o aluno escreve. Se a resposta estiver correta tudo bem; se somente algumas coisas estiverem corretas, considero-a “meio certa” (ou meio errada).

Mas, sabemos que na vida cristã só existem duas formas de nos conduzirmos: ou corretamente segundo a vontade de Deus, ou de forma errada contrariando a Sua vontade. Não há espaço para uma terceira alternativa que diz “está meio certo” ou “um pouco errado”. O fato de estar “meio certo” já é por si só errado. Qualquer coisa menos que obediência completa a Deus não é o ideal Dele para nós. Por esse motivo foi que Jesus veio ao mundo para obedecer ao Pai em todas as coisas e assim nos representar diante Dele (Hb 4.15; 5.7-10).

Neste salmo encontramos: O jeito errado e o jeito certo de viver.Ao escrever este salmo, Davi aborda um assunto muito pertinente: como devemos lidar com a nossa depravação moral e espiritual e a que encontramos também nas demais pessoas.

1) O jeito errado, v.1-6

“Disse comigo mesmo”, ou como alguém diria, Davi estava conversando com seu coração. Estava estabelecendo algumas metas para si próprio. E o mesmo acontece conosco, pois, não saímos por aí anunciando o que vamos fazer sem antes ponderarmos sobre o assunto por algum tempo.

Em seu coração Davi havia estipulado que ele seria mais cauteloso com suas palavras, especialmente quando estivesse diante de um ímpio, v.1.

O desejo de Davi era plausível e correto. Só que ele estava fazendo algo certo, mas, do jeito errado. Ele pecou:

-Por ser autossuficiente (v.1): vemos que ele estribou-se em suas próprias forças para fazer isso. O pecado da autossuficiência é um dos pecados mais antigos da humanidade. Ele nos persegue desde o Éden, quando o diabo disse para nossos pais Adão e Eva que eles poderiam ser donos de seus próprios destinos. Hoje, a maioria dos livros, filmes, palestras e tratamentos psicológicos oferecidos, pregam a autossuficiência como resposta para os problemas.

-Por ser conivente com o pecado (v.2): “quem cala, consente”. Davi se calou “acerca do bem”, ou seja, ficou quieto quando deveria ter falado contra o pecado. John MacArthur Jr. disse: “Quando a tolerância é valorizada acima da verdade, a causa da verdade sempre sofre”. Temos vivido dias em que a tolerância tem sido apregoada dentro das igrejas, sem haver uma correta delimitação dessa tolerância. Para sermos tolerantes precisamos primeiramente saber com o que estamos sendo tolerantes para não cometermos o pecado da conivência com o mal.

-Contra sua própria consciência (v2b,3a): A consciência está para a nossa alma assim como os nossos olhos estão para o nosso corpo. Ferir a consciência é cegar a alma, assim como ferir os olhos é deixar o corpo todo na escuridão. Davi ao ser autossuficiente ignorou que era Deus quem o fortalecia; ao ser conivente com o pecado calando-se enquanto deveria falar, ignorou as leis de Deus e isso pesou-lhe na consciência. Nossa sociedade não aguentando conviver com a culpa e por ser arrogante e não buscando em Deus o perdão, preferiu tirar os limites de tornar tudo relativo. Afinal, onde não há pecado sendo cometido, não há culpa e crise de consciência, não é mesmo?! Mas, uma sociedade carregada de culpa também é carregada de sentimentos ruins, como aconteceu com Davi que também pecou:

– Por dar pouco valor à sua vida (v.3b – 5a): Davi desejou morrer. Ao pedir a Deus que lhe desse “a soma dos meus dias” Davi estava dizendo: “Senhor, feche a conta”. Desejar a morte é pecado? Sim, é. Alguém pode questionar dizendo que Paulo desejou morrer (Fp 1.23). Mas, há uma grande diferença entre Paulo e Davi nessa questão. Paulo queria partir para“estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”, enquanto que Davi queria morrer para não mais enfrentar os sofrimentos que passava – era uma fuga. Ao desejar a morte, Davi estava dando pouco valor à sua vida, a qual sempre foi preciosa aos olhos de Deus.

– Por deixar-se levar pela amargura (v.5c e 6): A afirmação que ele fez no v.5: “Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade”, embora seja uma declaração verdadeira é aqui um brado de amargura do seu coração. Posteriormente, ele fará essa mesma declaração mas, com outros sentimentos (v.11). A amargura havia tomado o seu coração; ele olhou para sua vida e ficou revoltado ao ver que deixaria tudo que havia acumulado, mas, nem sabia para quem deixaria.

Vejamos agora o jeito certo de enfrentarmos os problemas e de vivermos conforme a vontade de Deus.

2) O jeito certo, v.7 – 13

Davi começou o salmo dirigindo-se a si mesmo, olhando para seus próprios recursos; e o resultando foi catastrófico.

De repente, ele para de caminhar na direção errada e se volta para Deus e então pergunta: “E eu, Senhor, que espero?”. Essa pergunta mexeu com ele de tal forma que ao respondê-la ele vê o curso de sua vida mudar. Ele se volta para Deus e diz: “Tu és a minha esperança” (v.7).

Foi como o sol no romper da aurora que começando bem fraquinho vai aumentando sua luz e calor e então o dia se faz. Assim foi o efeito dessa pergunta que levou Davi a refletir no jeito em que ele estava vivendo e como ele deveria viver. Agora, fazendo a coisa certa do jeito certo, Davi:

-Confessou seu pecado a Deus (v.8): Ele queria se ver livre das suas iniquidades, e em vez de calar sua consciência como fizera antes (vide v.2), agora ele vê que somente o perdão de Deus poderia restaurá-lo. Não damos a devida atenção à confissão dos pecados porque somos arrogantes e orgulhosos e não admitimos o quanto ofendemos a Deus em Sua santidade. A confissão é um ato de devolvermos a Deus a Sua glória que roubamos quando decidimos viver por nossa própria conta e autossuficiência.

– Reconheceu a sua necessidade de Deus (v.9): Antes ele tentara fechar seus lábios com sua própria força, mas, agora, ele entendera que é Deus quem pode fazer isso: “Emudeço, não abro meus lábios porque tu fizeste isso”. As palavras desse verso nos lembram de outro salmo, Sl 141.3: “Põe guarda, SENHOR, à minha boca; vigia a porta dos meus lábios”. Como somos fracos! Até para ficarmos quietos precisamos de Deus. Quão maravilhoso é Deus; até para coisas tão insignificantes Ele nos capacita!

– Clamou pela misericórdia de Deus (v.10 – 13): O pecado traz sérias consequências. A principal delas é o rompimento da nossa comunhão com Deus. Para o filho de Deus é um duro flagelo sentir o peso da mão de Deus. E Davi estava sentindo (v.10). Ele sabia também que quando Deus pesa a mão sobre o homem Ele o reduz a pó, e o que este tem de mais precioso desaparece com ele também. “Com efeito, todo homem é pura vaidade”. Essas mesmas palavras ele disse num contexto de amargura e desespero. Aqui, porém, ele as disse no contexto da misericórdia de Deus. E justamente por isso, ele que se via como um pó, como “pura vaidade”, isto é, vazio de sentido, olhou para Deus e viu quão misericordioso Ele é e assim, ele apelou para a misericórdia de Deus. Orou a Deus e buscou Seu socorro(v.12) na certeza de que Deus o ouviria

não porque houvesse nele algum merecimento, mas, porque Deus é misericordioso e o amava apesar dele ter sido o pecador que foi.

– Confiou somente em Deus (v.7 e 12): Depois que Davi voltou-se para Deus e declarou Nele a sua confiança e esperança viu todo o peso que estava em seu coração ser retirado. A maior loucura do ser humano e deixar de confiar em Deus para confiar em si mesmo. Como diz o Sl 40.4: “Bem-aventurado o homem que põe no SENHOR a sua confiança e não pende para os arrogantes nem para os afeiçoados à mentira”. Devemos nos lembrar que arrogância e mentira são pecados que muitas vezes cometemos. Devemos evitar a arrogância e o pecado não só nos outros, mas, também em nós mesmos.

Conclusão

O nosso jeito de viver e de resolver problemas é sempre mais fácil, porque é um atalho, mas, nunca dá certo. O jeito de Deus sempre é mais difícil porque primeiramente, requer de nós humildade para reconhecermos que não somos nada mais que “pura vaidade”.

Não se trata aqui de buscarmos o melhor jeito de fazermos as coisas; só existe um jeito certo de fazê-las e este é obedecendo a Deus. Fora disso devemos nos preparar para enfrentarmos as piores dores, tristezas, decepções e amarguras.

Não obedeça pelas metades. Faça tudo do jeito certo, do jeito de Deus.

Sermão pregado na Igreja Presbiteriana no Jardim Sul (São José dos Campos) em 24/07/2011.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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