Os Brados da Reforma Protestante do Século XVI

(Aula dada na Universidade Evangélica do Brasil – Caçapava, SP em comemoração do Dia da Reforma Protestante)

O mês de outubro é uma data importante em nosso calendário. Comemoramos o que foi um dos maiores acontecimentos da história não só da Igreja Cristã, mas, da humanidade: a Reforma Protestante do século XVI.

No dia 31 de outubro, dia este que um monge agostiniano, o alemão Martinho Lutero afixou suas 95 teses contra a Igreja Romana na porta da capela de Wittenberg. Toda a teologia da Reforma Protestante foi sintetizada em cinco frases em latim que ficaram conhecidas como Os Cinco Solas.

O termo latim “sola” quer dizer “somente”. As cinco frases são: Sola Gratia (Somente Graça), Sola Fide (Somente a Fé), Solus Christus (Somente Cristo), Sola Scriptura (Somente a Escritura), e Soli Deo Glória (Glória Somente a Deus).

           

1) Sola Scriptura (Somente a Escritura)

A Igreja Romana declara que toda sua crença está baseada em três pilares: A Escritura (Bíblia), o Magistério (o Papa) e as Tradições da Igreja. Ocorre que isso além de ser uma grande mentira (pois, a Escritura não tem papel primordial para ela) é também um grave erro, pois, coloca a palavra de um homem (o Papa e Conclave) e as tradições humanas no mesmo grau de importância que a Palavra de Deus. Isto explica as inúmeras heresias católicas!

Mas, a Reforma Protestante bradou em ata voz que a única autoridade sobre a Igreja de Cristo e sobre todos os homens, a única “régua” que pode medir, e a única “balança” que pode pesar as ações dos homens, que pode dizer o que é a Verdade e o que é mentira é somente a Palavra de Deus, a Escritura Sagrada.

Somente a Bíblia é a única palavra inspirada e autorizada por Deus para revelar-nos a Sua vontade soberana. Somente a Escritura é a única fonte de doutrina cristã, e fora dela nenhum ensinamento pode ser chamado de fato de “cristão”. Todo pensamento cristão que for produzido tem de estar totalmente e somente baseado na Escritura.

A Igreja Romana, assim como a Igreja Ortodoxa Oriental, Ortodoxa Russa, Ortodoxa Grega e Anglo-Católica, afirmam que a Escritura só pode ser devidamente interpretada dentro da Tradição da Igreja, o que a coloca somente nas mãos do clero, que segundo essas igrejas, é o único grupo autorizado por Deus a interpretar a Bíblia. Isso explica o motivo de tanta cegueira espiritual nessas igrejas. A História nos mostra como a Igreja Católica sufocou a Bíblia, e quando a usou, o fez para o seu próprio benefício.

Desafios da Interpretação e Aplicação da Escritura no viver diário

Seguindo na contramão da Igreja Romana, as Igrejas de confissão Reformada dizem o seguinte: todo crente, sob a orientação do Espírito Santo (sendo Este o mais importante e indispensável) e pelo exercício correto das suas faculdades intelectuais e recursos disponíveis pode interpretar a Bíblia corretamente. Mas aí surgiam os primeiros desafios.

O analfabetismo era um dos principais entraves. A educação era restrita somente aos nobres que podiam pagar por ela e era oferecida por órgãos ligados à Igreja Romana (monastérios, por exemplo). Fazia-se necessário que os ministros reformados se empenhassem também em oferecer alfabetização ao povo. Não tardou para que o lema “Ao lado de um pastor, um professor; ao lado de um templo, uma escola” viesse a ser uma das marcas dos reformados.

Outro desafio era colocar a Bíblia na língua materna de cada povo para que cada um pudesse lê-la. Ainda no século XIV, um inglês chamado John Wycliffe (1328 – 1384) trabalhou na tradução da Bíblia para a língua inglesa. Seu nome hoje está ligado a instituições muito importantes que atuam na tradução da Bíblia para idiomas que ainda a têm. Concomitantemente à Reforma aconteceu outro evento histórico que mudaria os rumos da humanidade: a invenção da imprensa tipográfica por outro alemão, Johannes Gutenberg. Bíblias e mais Bíblias eram impressas, além dos escritos dos reformadores.

Vencidos esses obstáculos surgiram outros como o da interpretação correta a fim de aplica-la corretamente também. A Igreja Romana toma um lema da Reforma de forma deturpada a fim de ridicularizar-nos. O lema é: “A livre interpretação das Escrituras”. Com isso não estamos dizendo que não obedecemos regra alguma, ou que cada pessoa pode interpretar a Bíblia do jeito que bem entender. Embora pode-se constatar esse erro em muitos cristãos, a Reforma nunca ensinou tal coisa. Quando falamos de “livre interpretação” nos referimos à liberdade em relação às tradições da Igreja Romana. Não estamos livres para interpretarmos a Bíblia do jeito que bem entendermos, pelo contrário, ensinamos que somente o Espírito Santo é quem pode nos dar o verdadeiro entendimento das Escrituras (cf. Jo 14.26). Todo o empenho nosso utilizando os recursos que temos para interpretar a Bíblia devem ser subordinados ao Espírito Santo que conferirá a Bíblia com a Bíblia (a Bíblia explica a Bíblia, logo dois textos dela nunca entrarão em contradição).

Contudo, como alguém disse: “A Bíblia não é difícil de ser entendida, mas, sim, obedecida”. É possível você entende-la utilizando-se das regras gramaticais somente, mas, para obedecê-la você dependerá totalmente do Espírito Santo. Submeta-se a Ele!

2) Sola Gratia (Somente Pela Graça)

O segundo brado da Reforma Protestante que veremos em nossa série é: Sola Gratia (Somente a Graça).

Desde pequenos somos educados a “fazer por merecer”. Em se tratando de recompensar algum ato não há problema algum. Até Deus faz isso conosco – uma vida obediente a Ele é abençoada, e uma vida abençoada por Ele é sem dúvida alguma, obediente.

Mas, quando voltamos nossa atenção para a salvação eterna de nossas almas, nos deparamos com uma verdade que golpeia profundamente o nosso orgulho: a salvação é resultado exclusivo da Graça de Deus. Em outras palavras, não há e nunca houve em nós qualquer merecimento para recebermos a salvação em Cristo. Desde que nossos pais Adão e Eva decidiram desobedecer a Deus entregaram suas vidas à escravidão do pecado, o qual tem como pagamento a morte. Um texto bíblico que deixa isso bem evidente é Rm 6.23: “porque o salário do pecado é a morte, mas, o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. O “dom gratuito”, ou seja, não pagamos, não negociamos, não barganhamos com Deus, apenas o recebemos, e recebemos de graça.

Surge então uma pergunta: Porque a nossa salvação é de graça? É muito comum ouvirmos as pessoas dizerem que quando algo é de graça não é valorizado pelas pessoas, e isso até certo ponto é verdadeiro mesmo. Mas, então, porque algo tão importante, tão necessário teve de ser de graça?

Pense por um momento: um tesouro que é extremamente necessário para uma pessoa o qual dinheiro algum e riqueza alguma desse mundo poderia pagar, como tal pessoa poderia adquiri-lo? Só existe um meio desse tesouro ser adquirido, a saber, se o dono dele (no caso, Deus) decidisse doá-lo gratuitamente e sem custo algum para a pessoa.

Mas, tal tesouro (a vida eterna e o perdão dos nossos pecados) não custou nada para nós por causa da nossa total incapacidade de adquiri-lo por nós mesmos, porém, custou um preço muito, muito elevado, preço este tão elevado quanto a Graça de Deus, e este preço foi o sangue de Jesus Cristo.

 

Em Cristo fomos reconciliados com Deus

Em Rm 5.1-11 temos verdades importantes para a Fé Cristã Reformada. O v.1 começa declarando em “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus”. Quando estudarmos o próximo brado da Reforma o Sola Fide, voltaremos a este texto para falarmos sobre a fé. Por enquanto, destacamos aqui que Cristo estabeleceu a paz entre nós e Deus. O texto é claro ao nos descrever. No v.6 a Escritura nos chama de “fracos” que no grego é ástenês que literalmente quer dizer “doente”, alguém totalmente incapacitado de se remediar e muito menos curar-se. No v.8 somos chamados de “pecadores”, hamartolós, no grego e quer dizer pessoas estragadas moralmente, cujas ações são resultados da sua natureza estragada, ou seja, pecamos porque somos pecadores. No v.10 porém, temos uma declaração da Escritura que é estarrecedora e apavorante. Ela nos diz que sem Cristo éramos ‘inimigos” de Deus. A palavra “inimigos” no grego é ecthrói que quer dizer “odiados por Deus”, “hostis a Deus”. Por tudo isso éramos inimigos declarados de Deus.

Porém, Cristo nos reconciliou com Deus. O verbo “reconciliar” que aparece duas vezes neste versículo como um particípio está na voz passiva, ou seja, o sujeito da frase (no caso, nós) sofre a ação por parte de outra pessoa (no caso, Cristo). E o que isso quer dizer? Não fizemos nada para nos reconciliarmos com Deus, e muito menos para merecermos que Ele se dispusesse a se reconciliar conosco! Isso é Graça!

 

Pelo Espírito Santo somos conduzidos a Cristo

É o Espírito Santo quem convence o pecador de seu estado deplorável de pecado (Jo 16.8); é Ele quem ilumina os olhos da alma para que o pecador possa ver as realidades espirituais (Ef 1.18); é Ele quem guia os filhos de Deus a toda verdade e os faz lembrar de tudo quanto o Senhor Jesus lhes ensinou (Jo 14.26). É o Espírito Santo quem gera no coração do crente o fruto que é para a vida eterna (Gl 5.22,23). É pela obra do Espírito Santo em nosso coração que somos capacitados a chamar Deus de Abba, Pai (Rm 8.15). Enfim, é o Espírito Santo quem aplica os benefícios do sacrifício de Cristo em nosso coração.

É lamentável ver que a maioria das igrejas evangélicas têm dificuldades com essa doutrina bíblica. Para essas igrejas o ser humano de alguma forma contribui para que seja salvo. Afirmam que o ato de crer em Deus é a parte que cabe ao homem. De fato a Bíblia nos mostra que a fé é imprescindível para a nossa salvação. Mas, conforme Ef 2.8 tanto a graça quanto a fé são “dom de Deus” ao pecador. Se Deus não capacitar o homem a crer, este jamais crerá em Cristo.

Quando de alguma forma damos a nós os créditos da nossa salvação estamos usurpando a glória que pertence somente a Deus. É a auto exaltação do verme que embora, rastejante, nojento e asqueroso, insiste e se ver além do que realmente é.

A bíblia nos mostra que em se tratando da nossa salvação, do começo ao fim a obra toda foi realizada por Deus. Somente quando o pecador é vivificado e regenerado pelo Espírito Santo é que há uma cooperação por parte da pessoa com o Espírito Santo numa vida de santidade, pois, o pecador agora convertido e vivificado, passa a ouvir a e obedecer à voz do Espírito Santo, que aliás, é a prova indelével de que agora esse pecador é um filho de Deus (Rm 8.14,16).

3) Sola Fide (Somente pela Fé)

O terceiro brado da Reforma Protestante que veremos em nossa série é: Sola Fide (Somente a Fé).

Algo que encontramos em todos os homens é a fé. Até quem se declara ateu tem fé, pois, não crer em nada é uma crença. Porém, a Fé relacionada ao Sola Fide aqui trata-se de algo muito mais profundo do que uma simples crença. Trata-se da Fé Salvadora.

A Confissão de Fé de Westminster no Cap.XIV, §I diz: A graça da fé, por meio da qual os eleitos são habilitados a crer para a salvação das suas almas, é a obra que o Espírito de Cristo faz nos corações deles (1Co 12.3; Ef 2.8; Hb 12.2), e é ordinariamente operada pelo ministério da Palavra (Rm 10.14,17); por esse ministério, bem como pela administração dos sacramentos e pela oração, ela é aumentada e fortalecida (1Pe 2.2; At 2.32; Mt 28.19; 1Co 11.23-29; 2Co 12.8-10).

Isto quer dizer que a Fé Salvadora não é resultado do esforço humano, mas, sim, da operação do Espírito Santo capacitando o homem (que está morto em seus pecados) a crer. Mas, para isso, Ele primeiramente, comunica-lhe a Vida de Cristo (Ef 2.1). Somente depois disso é que a pessoa é habilitada a crer para a salvação.

Ainda no mesmo capítulo §II a Confissão de Fé diz: “Por essa fé o cristão, segundo a autoridade do mesmo Deus que fala em Sua Palavra, crê ser verdade tudo quanto nela é revelado (1Te 2.13; 1Jo5.10; At 24.14), e age de conformidade com aquilo que cada passagem contém em particular, prestando obediência aos mandamentos, tremendo às ameaças e abraçando as promessas de Deus para esta vida e para a futura; porém os principais atos de fé salvadora são: aceitar e receber a Cristo e descansar só Nele para a justificação, santificação e vida eterna, isto em virtude do pacto da graça”.

A Palavra de Deus exerce papel primordial no coração da pessoa, pois, é mediante a pregação da Palavra de Deus que a Fé é fortalecida e levada ao seu propósito final. Não existe conversão a Cristo sem que o Verdadeiro Evangelho seja pregado com fidelidade! Essa condição é indispensável para a salvação dos pecadores e exaltação de Deus.

O salvo não somente crê que a Palavra de Deus é a Verdade. Ele também vive e age de acordo com ela. Ele não escolhe partes da Palavra para obedecer, mas, sim, tem seu coração disposto a obedecer toda a Palavra de Deus.

Ele não busca só as promessas que lhe agradam na Palavra de Deus; ele também treme e teme as ameaças que na Palavra estão contidas aos rebeldes. Seu coração não vê somente o que está destinado para essa vida, mas, principalmente, para a vida futura.

Os principais atos da Fé Salvadora são: aceitar e receber a Cristo e descansar Nele para a Justificação, Santificação e Vida Eterna. O ato de “aceitar a Cristo como Salvador” tem sido banalizado por muitos que partem pelas ideias do Arminianismo. Por não fazerem uma distinção clara entre fé comum e Fé Salvadora, muitos pregadores passam a ilusão de que qualquer pessoa pode receber a salvação eterna, desde que, é claro, creia que em Jesus. Isso é verdade se aplicado aos eleitos. Porém, a fé comum não gera vida no coração da pessoa; nem mesmo a Fé Salvadora gera vida, pois, ela vem depois da Regeneração, depois do Novo Nascimento. Somente depois de tudo isso é que a pessoa “aceita” a Cristo, ou seja, abandona todas as suas tentativas de fazer com as suas próprias mãos alguma coisa para merecer a Salvação, e descansa somente no sacrifício de Jesus e Nele se refugia confiante de que está livre da condenação eterna.

O terceiro parágrafo do Cap. XIV da Confissão de Fé diz:  “Esta fé é de diferentes graus: é fraca ou forte (Mt 6.30; Mt 8.10; Rm 4.19,20); pode ser muitas vezes e de muitos modos assaltada e enfraquecida, mas sempre alcança a vitória (Lc 22.31,32; 1Co 10.13), desenvolvendo-se em muitos até à plena segurança em Cristo (Hb 6.11,12; Hb 10.22; 2Tm 1.12), que é tanto o Autor, como o Consumador da fé (Hb 12.2)”.

A vida do crente assim como a do ímpio tem seus altos e baixos. Porém, a diferença está na direção para qual cada um se dirige. Na vida do crente até mesmo quando ele cai, ao arrepender-se e voltar-se para Deus (cf. Ap 2.5) ele continua “subindo”, crescendo.

Nunca devemos nos esquecer que somos imperfeitos. Porém, o propósito de Deus para nós é que nosso alvo seja a Perfeição (Jesus Cristo). E Confiados Nele ainda que nesta vida nos seja impossível sermos perfeitos, contudo nosso alvo é a Perfeição.

Ao declararmos Sola Fide estamos dizendo que abrimos mão de todas as nossas obras como meios para nos salvar, e cremos somente no sacrifício vicário de Cristo para alcançarmos tamanha bem-aventurança. Declaramos que a nossa fé repousa em Cristo e que abandonamos toda ilusão de que exista algo bom em nós por nós mesmos, pois, sabemos que é somente a Graça de Deus que pode salvar pecadores tão corruptos como nós.

Não cremos na fé como os supersticiosos fazem, mas, nos voltamos a Deus com fé porque tanto a Graça quanto a Fé são dom de Deus (cf. Ef 2.8), e como é impossível que alguém que tenha tido seus olhos da alma abertos pelo Espírito e seu coração de pedra transformado num coração de carne continuar longe de Deus, aqui estamos nós respondendo com fé somente no poderoso sangue de Cristo. Embora tenhamos sido abençoados por Deus com a Fé Salvadora, não é a Fé que nos salva, mas, sim, a Graça de Deus. Essa Fé é “Salvadora” porque o resultado dela na vida daqueles que a receberam é a salvação eterna!

4) Solus Christus (Somente por Cristo)

O quarto brado da Reforma Protestante que veremos em nossa série aqui é Solus Christus (Somente Cristo).

Do começo ao fim, a obra da nossa salvação é realização do Deus Triúno (cf. Rm 8.9-11). Portanto, heresias que ensinam que em cada épica da História uma das três Pessoas da Trindade teve maior destaque, ou que Deus em cada época agiu de uma forma, no Antigo Testamento como Criador, no Novo Testamento como Salvador, e em nossos dias como o Consolador (exemplo dessa heresia foi o Modalismo, do 1º século d.C.) devem ser rechaçadas.

Quando, porém, os reformadores levantaram a bandeira “Solus Christus”, não estavam dizendo que somente Jesus Cristo agiu para salvar o povo de Deus, mas, sim, que somente o sacrifício de Cristo é bastante e suficiente para salvar o povo de Deus.

A Declaração de Cambridge diz o seguinte:

           

Reafirmamos que a nossa salvação é realizada unicamente pela obra meritória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para a nossa justificação e reconciliação com o Pai. Negamos que o Evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada. (http://www.monergismo.com/textos/cinco_solas/cinco_solas_reforma_erosao.htm).

Observemos aqui as seguintes verdades.

A primeira delas é: somos salvos pelos méritos (merecimentos) de Cristo. Desde que Adão e Eva pecaram, não há em nenhum ser humano, exceto no Cristo encarnado, merecimento algum de qualquer Bênção, especialmente, a bênção da salvação. Nenhum ser humano é salvo porque é bom até mesmo porque as escrituras revelam que a natureza humana é totalmente destituída da Graça de Deus (Rm 3.23) e que não há um justo sequer sobre a face da terra (Ec 7.20). Observe que as Escrituras não dizem que não somos capazes de atos bondosos e de compaixão, mas, sim, que até essas obras de compaixão estão danificadas pelo pecado em nosso coração. E isso faz com que nenhuma de nossas obras mereçam as bênçãos de Deus, mas, sim, Sua reprovação condenando-nos à danação eterna. A questão aqui não é fazermos coisas boas, mas, sim, coisas justas de acordo com a Justiça de Deus. Aí encontramos a segunda verdade a ser destacada aqui:

Em segundo lugar, somente Cristo poderia realizar essa obra. Somente Ele poderia fazer uma obra tão justa assim para garantir a nossa salvação. Em Cristo, o Deus Filho, santo e puro, essa obra de justiça conforme a justiça de Deus foi realizada. Sua vida sem pecado satisfez a justiça de Deus, e a Sua morte vicária (substitutiva) levou sobre Si a culpa e o pecado dos filhos de Deus e imputou a eles a Sua própria justiça tornando-os tão justos quanto Ele, e por isso mesmo, a inimizade entre nós e Deus foi desfeita, e Deus nos recebeu em Sua presença, reconciliados com Ele por meio de Jesus Cristo.

A terceira verdade que destacamos aqui é que se não pregarmos essas verdades não estaremos pregando o verdadeiro Evangelho. A pregação do Evangelho deve mostrar ao pecador:

*        a pecaminosidade desastrosa e total do homem,

*        que ele nada pode fazer para se salvar da ira do Deus santo que não inocenta o culpado (Êx 34.7; Nm 14.18; Na 1.3), e que por isso mesmo é o principal inimigo do homem enquanto este não for justificado (Rm 5.1-11),

*        que somente o sacrifício de Cristo que substituiu o pecador lá na cruz pode garantir que Deus aceitará o pecador em Sua santa presença (Hb 10.19-23),

*        e que a resposta que o pecador deve dar a tudo isso é depositar sua fé e confiança somente em Cristo

          Logo, uma pregação que não contemple todas essas verdades ou apenas uma ou outra, não é uma pregação fiel do Evangelho de Cristo. É lastimável que muitos (a maioria) dos crentes e das igrejas evangélicas tenham medo de “espantar” os pecadores se lhes expuserem as verdades bíblicas dessa forma, e por isso mesmo, adotam um discurso dos mais rasos e pífios dizendo aos pecadores: “Deus ama você!”, “Se você está sofrendo, pare de sofrer e entregue sua vida a Cristo!”, “Se você quer ser feliz e abençoado então venha para Jesus”. É claro que essas frases são verdadeiras se ditas dentro de uma pregação que contemple TODAS as verdades do Evangelho de Cristo supracitadas.

Citando novamente a Declaração de Cambridge vemos que a pregação do Evangelho precisa urgentemente voltar a ser bíblica, do contrário não é evangélica:

 

À medida em que a fé evangélica se secularizou, seus interesses se confundiram com o da cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, um individualismo permissivo, a substituição da santidade pela integridade, do arrependimento pela reputação, da verdade pela intuição, da fé pelo sentimento, da providência pelo acaso, e da esperança duradoura pelagratificação imediata. Cristo e Sua cruz se deslocam do centro da nossa visão.(http://www.monergismo.com/textos/cinco_solas/cinco_solas_reforma_erosao.htm).

Por isso mesmo, temos de reaver urgentemente a mensagem bíblica que coloca Cristo como o centro de nossa vida, fé, esperança e ação. Uma mensagem que ouse dizer: Necessito somente de Cristo, e recuso qualquer “algo mais” em que eu possa colocar a minha fé, esperança e convicção!

 

5) Soli Deo Gloria (A Glória somente a Deus)

O último dos brados da Reforma Protestante que veremos em nossa série é Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus).

O coração do pecador sempre se rivalizou com Deus, e o seu maior desejo é reter para si a glória que pertence somente a Deus. É fato que ao criar o homem, Deus o fez com um forte impulso para buscar a Sua glória, e assim, encontrar o sentido de sua vida.

O Breve Catecismo de Westminster, em sua primeira pergunta diz: “Qual é o fim principal do homem?”.

RESPOSTA. “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. (Rm 11.36; 1Co 10.31; Sl 73.25-26; Is 43.7; Rm 14.7-8; Ef 1.5-6; Is 60.21; 61.3).

Mas, por causa do pecado, o homem deixou de buscar a Deus para dar a Ele toda a glória, e nessa glória se deleitar, para requerer a glória para si mesmo. Vemos isso muito cedo na história da humanidade, quando Caim e Abel ao adorarem a Deus, Caim quis adorar a Deus do seu jeito e não como Deus havia prescrito. De lá para cá o que mais vemos é o homem roubando a glória de Deus, e o que era para preencher e plenificar o coração humano (a glória de Deus) tornou-se um fim em si mesmo, e, por isso mesmo, o homem encontra-se tão vazio em sua alma.

Em muitas igrejas, as Escrituras Sagradas não têm a autoridade absoluta, tendo sido substituída pela Psicologia, o Aconselhamento Bíblico pela Psicanálise, a Obra Missionária deixou de ser orientada somente pela Palavra para ser orientada pela Antropologia e Sociologia, a Pregação do Evangelho foi trocada por técnicas de marketing, e a adoração foi substituída pelo entretenimento. Sentir-se bem tornou-se mais importante do que fazer o que é certo. O culto tem de ser somente “celebração”, logo, qualquer ensino ou orientação que leve as pessoas a pensarem no seu comportamento pecaminoso e se arrependerem de seus pecados, não são vistos com bons olhos por essa geração que cultua o seu próprio prazer.

O resultado disso não poderia ser outro a não ser a glorificação do homem em vez de um culto e uma vida centrados na pessoa de Deus. E assim muitos dos cultos que em tese são para Deus, na verdade, são para o próprio homem.

A Declaração de Cambridge diz o seguinte:

            Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou os nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer as nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito(http://www.monergismo.com/textos/cinco_solas/cinco_solas_reforma_erosao.htm).

Foi Deus que Se revelou a nós, e não nós que O encontramos por nossos esforços e méritos. Não quisesse Ele Se revelar a nós estaríamos todos na escuridão eterna. Ao deixar-nos Sua Palavra registrada Ele quis que por Ela fôssemos orientados para a Ele. Quando Ele quis revelar-nos Sua Graça salvadora, o fez por Sua livre vontade e não por haver em nós algum merecimento. Quando Ele nos vivificou e nos capacitou com a Fé Salvadora para com a qual pudéssemos crer em Cristo, deixou bem claro que até para crermos Nele precisamos Dele. Quando Ele nos deu Seu Filho Jesus Cristo para morrer por nós na cruz mostrou-nos que em nós não havia e jamais haverá qualquer condição ou poder para nos salvarmos por nós mesmos – se Cristo não tivesse assumido vicariamente o nosso lugar lá na cruz estaríamos todos condenados.

Diante de tudo isso, nosso coração só tem uma atitude: render a Deus toda a glória e cultuá-Lo conforme Ele determina em Sua Palavra. Citando novamente a Declaração de Cambridge:

            Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorifica-Lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus e para a Sua glória somente.

            Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a autoestima, ou a autor realização se tornem opções alternativas ao Evangelho. (http://www.monergismo.com/textos/cinco_solas/cinco_solas_reforma_erosao.htm).

            Glorificamos a Deus quando damos a Ele todo o crédito pela nossa salvação, quando colocamos inteiramente Nele a nossa confiança, quando nos curvamos obediente e sinceramente diante de Sua vontade e nos submetemos com alegria aos propósitos de Deus ainda que estes não sejam o que esperamos. Glorificamos a Deus quando como o apóstolo Paulo depois de constatar a maravilhosa obra de Deus nos corações pecadores disse:

Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas.

 A ele, pois, a glória eternamente. Amém!

(Rm 11.36)

Rev. Olivar Alves Pereira

Seu conservo

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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2 Responses to Os Brados da Reforma Protestante do Século XVI

  1. Genézio Trigo says:

    Gostei muito das pregações do irmão, gostaria de receber as pregações e estudos quando possível

    • Olivar Alves Pereira says:

      Caro irmão, Genézio
      O prazer é meu em recebe-lo aqui.
      Quanto ao material, o texto é este que o irmão vê aqui. Pode usar como bem entender. Quanto ao áudio, é preciso que o irmão me diga qual deseja. Eu tenho os áudios somente das séries de Mensagens Expositivas (Hebreus, Gálatas, Efésios, 1ª, 2ª e 3ª João e neste próximo domingo, começo a expor Atos).
      É neste email mesmo que eu lhe envio?
      Aguardo sua confirmação

      Rev.Olivar

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