Reconciliados e Reconciliadores

Leia 2Coríntios 5.11 – 6.3

Alguma vez você já se perguntou por que Deus no meio de tantos pecadores neste mundo escolheu você para ser salvo e feito um filho Dele? Confesso que quanto mais estudo sobre o amor de Deus, mais maravilhado fico, e esta questão é a que mais me intriga.Uma vez que Deus escolheu os que haveriam de receber a salvação, e essa escolha Ele fez não com base em merecimentos humanos (até mesmo porque ninguém merecia ser salvo), porque Ele me amou tanto assim? E a resposta não encontro em mim mesmo, mas, somente em Deus: Ele me amou porque Ele é amor. Não se trata de merecimento meu, mas, da misericórdia de Deus.

Na presente carta o apóstolo Paulo apresenta uma defesa do seu ministério apostólico que estava sendo questionado especialmente pelos coríntios. O fato dele não ter sido um dos doze apóstolos que andaram com Cristo fez com que eles questionassem sua autoridade como apóstolo.

Para complicar ainda mais a situação, havia um grupo conhecido como os judaizantes que ensinavam que além de crer em Cristo era necessário também obedecer a todos os rituais do Judaísmo para alguém ser salvo. E por pregarem tal absurdo, Paulo os rechaçava por onde passava pregando o Evangelho. Por isso mesmo eles viviam tentando desacreditar Paulo.

Neste texto ele fala de sua sinceridade quando se apresenta como um apóstolo devidamente comissionado por Cristo (v.11).

No v.12 ele afirma que gostaria que aqueles irmãos coríntios se alegrassem com ele pelo fato dele ter sido escolhido por Cristo para pregar o Evangelho, em vez de darem atenção ao que diziam os judaizantes fingidos.

Segundo o Dr. Simon Kistemaker, o v.13 é uma referência às visões que Paulo tinha, tal como a que está registrada em 2Co 12.1-6. Ao dizer: “Porque, se enlouquecemos, é para Deus…” ele está se referindo a essas experiências de extáticas; e ao dizer: “e, se conservamos o juízo, é para vós outros”, ele está dizendo que para lidar com a igreja e se relacionar com aqueles irmãos ele necessitava de lucidez. Se hoje, as visões e outros fenômenos espirituais são tomados por muitos como sinal de autoridade, para Paulo tais coisas não tinham a menor importância no que dizia respeito à edificação da Igreja de Cristo, e muito menos para se reafirmar como autoridade apostólica diante da mesma.

Mas, por que Paulo não usou desse artifício para se impor como autoridade diante da Igreja de Cristo como tantos o fizeram e outros tantos ainda o fazem hoje? A resposta está no v.14 onde ele diz: “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram”. Ou seja, por ter sido amado por Cristo e ter recebido este amor justamente quando ele caminhava furioso para massacrar a Igreja de Cristo (At 9), Paulo se sentia constrangido por tão grande amor e por esta razão sentia que deveria agir como Cristo agiu, a saber, enquanto estava sofrendo a injúria dos perversos pecadores, Cristo os amou e por eles se entregou (cf. Rm 15.3; Hb 12.2,3; Is 53.7). Se Cristo agiu com tão maravilhoso amor em relação aos seus algozes, por que razão Paulo não deveria agir da mesma forma, justamente ele que fora capacitado por Deus a agir assim?

No v.16 ele faz uma declaração belíssima: “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo”, ou seja, se antes de sua conversão ele conhecia a Cristo “segundo a carne”, isto é, não O reconhecendo como o Messias Prometido e o Filho de Deus, agora, depois de sua conversão, ele conhecia a Cristo como tal.

Então ele conclui dizendo que: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (v.17). O passado ficou para traz; Deus, em Cristo fez de Paulo nova criatura.

O fato de ter Cristo morrido por nós e nos dado do Seu amor e vida nos fez novas criaturas. Definitivamente, não temos justificativas para não perdoarmos os que nos ultrajaram e nos fizeram mal. Se não perdoamos é porque ainda não fomos feitos nova criação em Cristo, ou porque mesmo tendo recebido tal graça não queremos perdoar.

O ponto que Paulo toca neste texto é que fomos reconciliados com Deus por meio de Cristo, e como tais, também devemos ser reconciliadores Cristo aos homens para que Ele os conduza a Deus. Por isso proponho para nossa reflexão o tema: Reconciliados e Reconciliadores.

1)      A obra de Cristo, v.18-21

“Ora, tudo provém de Deus…”. Qualquer mensagem de salvação eterna que não proclame essa verdade com todas as letras e vigor deve ser desconsiderada.

Paulo tinha convicção de que seu chamado para ser salvo provinha de Deus; seu chamado apostólico provinha de Deus; a sua salvação em todos os detalhes provinha de Deus. Se houvesse qualquer participação do homem, por menor que seja, na realização da salvação, não seria salvação, mas sim, uma autoajuda. Pessoas que podem sair sozinhas de uma situação complicada não precisam de um Salvador. Não era o nosso caso. Não havia qualquer condição em nós para por nossos esforços nos salvarmos. Necessitamos completamente de Deus.

“…que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo (…) a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo (…)”. Cristo é a porta que se nos abre para Deus (Jo 10.9); é o Caminho que nos conduz a Deus (Jo 14.6); é o Sumo Sacerdote que entrou no Santo dos Santos e nos deu acesso a Deus (Hb 9.23-28); é o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8).

Cristo tornou possível o que nos era impossível. A obra de Cristo lá cruz nos reconciliou com Deus. Mas, observemos que o tempo todo, toda a iniciativa partiu de Deus.

 2) A nossa obra, v.18-21 e 6.1-3

“…e nos deu o ministério da reconciliação (…) e nos confiou a palavra da reconciliação”. Quanta honra! Que privilégio! Éramos miseráveis pecadores, merecedores do inferno e do castigo eterno quando Deus nos amou a ponto de nos transformar em Seus filhos e herdeiros. Contudo, a salvação não é um convite ao ócio. Fomos reconciliados com Deus e chamados por Ele para sermos reconciliadores neste mundo, levando os homens até Cristo, para que, conhecendo-O sejam conduzidos ao Pai e por Ele salvos também.

O v.20 diz que “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio”. Literalmente, Paulo como apóstolo de Cristo, fora comissionado por Ele, e como tal era um embaixador que falava em nome de Cristo. Se no v.13 ele deixou bem claro que não se apoiava nas visões para afirmar sua autoridade apostólica (como tantos outros faziam), aqui no v.20 ele mostra que a sua autoridade apostólica repousa nos seguintes fatos:

a)       Ele pregava “em nome de Cristo” – o próprio Senhor lhe dera essa autoridade pessoalmente;

b)      Ele pregava a Palavra de Deus – em 1Co 1.18-25 ele mostrou que era a “palavra da cruz” a mensagem que ele pregava.

Justamente porque ele tinha plena consciência de seu chamado e da autoridade de Cristo sobre a sua vida é que ele conclamava as pessoas: “Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus” (v.20). E este apelo é carregado de urgência como se vê em 6.2: “…eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação”. O dia da salvação é hoje; o passado se foi, o futuro ainda não nos pertence. O que temos é somente o hoje o agora. E é com essa urgência que devemos chamar os pecadores a Cristo.

Paulo tinha essa convicção. Sobre ele pesava essa responsabilidade (1Co 9.16). O mesmo senso de responsabilidade deve pesar em nosso coração.

Somos chamados por Deus para sermos reconciliadores, levando a mensagem da reconciliação de Deus com a humanidade através de Jesus. O mundo está em agonia. O mundo está em guerra com Deus. O mundo olha para Deus e O vê como o seu grande inimigo, o seu “desmancha prazeres”. O mundo é incapaz de perceber por si só que Deus é a sua única solução, a sua única satisfação verdadeira. Nós não temos o poder de abrir os olhos do mundo (só Deus o tem); mas, Deus pode (e quer) nos usar como testemunhas vivas, como outdoors do Seu amor e de Sua paz. Ele confiou-nos a palavra da reconciliação e por isso mesmo devemos conclamar ao mundo que se reconcilie com Deus por meio de Cristo.

Aplicação Prática

Entre os alvos que você tem traçado para a sua vida está o de proclamar a Palavra de Deus àqueles que estão ao seu redor constantemente? Você diz que está em paz com Deus, mas, não se preocupa com aqueles que perecem ao seu redor? Você está em paz com Deus mesmo?

Que saiamos por esse mundo proclamado a reconciliação de Deus com o mundo por meio do sacrifício de Jesus, e, assim, muitos outros O conheçam como Ele quer ser conhecido: o Deus que é todo amor nos trouxe a paz por meio de Seu Filho Jesus Cristo.

Mensagem proclamada na Igreja Presbiteriana no Jardim Sul em 22 de janeiro de 2012

Rev. Olivar Alves Pereira


About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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6 Responses to Reconciliados e Reconciliadores

  1. Aldo says:

    Oi Pastor, paz do Senhor Jesus !
    Sou pastor pentecostal, e um membro de sua igreja me indicou seu blog, li a pregação e fui tremendamente edificado, Deus continue te usando ! estou aprendendo bastante coisa dos meus irmãos reformados….

    • Que legal, meu irmão! Mas, qual foi o membro da minha igreja que lhe indicou o site? Por favor, ajude-me na divulgação desse site. Meu objetivo é somente a proclamação da Palavra.

      • Sérgio Vinícius says:

        Ótimo texto Rev Olivar, realmente muitas vezes nós presbiterianos descansamos na doutrina da eleição, pensando se Deus elegeu ele da um jeito de salvar meu vizinho, meu amigo, meu colega de trabalho etc. Mas muitas vezes esquecemos que no processo da salvação do homem Deus nos delega um papel a pregação do evangelho, não que ele dependa de nós para isso, mas em sua soberania ele escolheu nos delegar essa função que muitas vezes demos negligenciado.
        Que Deus nos ajude sempre a ser agentes reconciliadores através da obra que ele fez e tem feito em nossas vidas.

        • Repudio de todo o meu coração essa atitude de crentes que dizer crer nessa preciosa doutrina e se escondem atrás dela para justificar a preguiça e negligência. Afinal, Deus não só nos predestinou para um fim (a salvação), mas também para os meios (pregação do Evangelho).

      • Aldo says:

        A irmã Mafalda Dinha, que Deus o nosso Senhor continue abençoando todos vcs, aprendo aqui e ensino na minha denominação…Glória a Deus !

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