Santidade atraente

Marcos 2.15-17

Nestes dias temos falado sobre santidade de vida. Deus nos santificou, isto é, nos separou deste mundo para Si, para vivermos de acordo com os Seus princípios, isto é, em santidade.

Durante muito tempo os crentes entenderam que é necessário um afastamento de tudo aquilo que denigre e depõe contra uma vida santa. Atualmente, temos visto um movimento inverso onde muitos crentes têm acreditado que devemos estar presentes onde os pecadores estão, como por exemplo, jovens crentes frequentando baladas, igrejas criando blocos de samba para desfilarem no carnaval, alegando que devemos nos fazer de tudo para com todos a fim de ganharmos alguns para Cristo (uma distorção medonha das palavras de Paulo (1Co 9.22).Se essa nova abordagem proposta por muitos de que devemos estar onde estão os pecadores e fazendo o que eles estão fazendo para levar-lhes o Evangelho de Cristo é algo tão perigoso e nocivo, também devemos levar em consideração que a “nossa” santidade em vez de atrair os pecadores funciona mais como um repelente. Por que será?

Quando o Senhor Jesus terminou o seu sermão que ficou conhecido como “o sermão do monte”, a Bíblia diz que as multidões estavam “maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mt.7.28,29).

Aqui em Mc 2.15-17, Ele estava na casa de Levi (Mateus) com Seus discípulos e muitos publicanos e pecadores. Também estavam ali os escribas dos fariseus. Estes, indignados, perguntaram aos discípulos de Jesus: “Por que come [e bebe] ele com os publicanos e pecadores?”. O que Jesus tinha que atraía esse tipo de gente que era desprezada e ridicularizada pelos escribas dos fariseus, os religiosos da época?

Antes de tudo é importante ressaltarmos o que o Senhor Jesus quis dizer quando respondeu: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores” (v.17).

Os fariseus desempenharam papel muito importante num período da história do povo de Deus guardando e preservando a Lei do Senhor e os costumes do Judaísmo. Porém, com o passar do tempo eles não só se julgavam os únicos guardiões da Lei como até mesmo dignos de tê-la guardado. Tal comportamento os levou a se julgarem “os justos” porque eles cumpriam o que a letra da Lei dizia. Por isso, mesmo, aqueles que não obedeciam a Lei do Senhor e não se enquadrassem no rigor dos fariseus eram por eles considerados e descritos como os “pecadores”. Os publicanos eram uma classe odiada pelos judeus, porque mesmo sendo judeus, como era o caso de Levi, trabalhava a serviço do império romano cobrando impostos de seus patrícios e com muita frequência, extorquindo-os. Por essa razão eles eram considerados terríveis pecadores.

Então quando o Senhor Jesus disse que Ele não veio para os sãos e sim para os doentes, Ele estava usando um conceito dos fariseus e mostrando-lhes que eles não eram sãos; eles eram tão pecadores como os demais. Mas, somente aqueles que se veem como pecadores e necessitados de socorro é que recebem o favor de Deus. Quem se vê como santo jamais admitirá que necessita de um Salvador, e, por isso, jamais será salvo.

Voltando àquela pergunta: o que será que Jesus tinha que mesmo sendo o ser mais santo desse universo que pisou nessa terra atraía a Si os pecadores?

É verdade que muitos seguiam a Cristo por curiosidade, outros tantos por oportunismo talvez querendo comida (Jo 6.26) ou prestígio (Lc 9.57,58), e ainda havia os que O seguiam para encontrar alguma coisa de que pudessem acusá-Lo, como sempre o fizeram os fariseus.     Mas, no meio desses todos havia pecadores que viram em Jesus Cristo a salvação para o seus corações aflitos.

A santidade de Jesus não só nos recorda como também nos capacita a fazer diferença neste mundo.

Uma vida de santidade que atrai os pecadores:

1) Demonstra confiança exclusiva nos métodos de Deus, Mt 28.18-20

No momento em que buscamos métodos variados para alcançarmos os pecadores, tais como os que temos visto em tantas igrejas por aí, estamos dizendo com nossas ações que os métodos de Deus são ineficazes; estamos declaradamente dizendo que Deus é ultrapassado e, portanto, necessita da criatividade humana.

Por séculos a Igreja de Cristo atuou da mesma maneira:

  • Testemunho fiel e comprometido dos crentes com a Palavra de Deus;
  • Amor e apego pelo culto público onde a Palavra de Deus era o centro;
  • Vida teocêntrica, na qual tudo girava em torna da glória de Deus e Dele ser honrado pelas ações do Seu povo.

Hoje, o relativismo tomou conta das igrejas. Se antes a Igreja era a porta-voz de Deus aqui na terra proclamando a verdade, hoje, em nome da tolerância, ela é desafiada a dialogar com o mundo. Não fomos chamados para dialogar; fomos chamados para pregar a Verdade quer os homens concordem ou não.

Por abrir mão do seu chamado para monologar (proclamar a Verdade do Evangelho) diante do mundo, a Igreja hoje está tentando encontrar um lugar para se assentar nessa roda de escarnecedores e acusar-lhes de seus pecados e apontar-lhes a salvação (e a condenação) em Cristo.

Justamente por isso vemos igrejas adotando os métodos mais espúrios e mundanos possíveis.

O método de Deus consiste em:

  • Uma vida submetida à autoridade de Cristo, (v.18);
  • Discipulado consistente (v.19);
  • Ensino zeloso da Palavra de Deus (v.20).

Uma santidade que atrai os pecadores também:

2) Demonstra certeza absoluta do propósito de Deus, Rm 8.28,29

Estamos diante de uma das passagens mais favoritas dos cristãos: “Sabemos que todas as cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (v.28), e por conta de um triunfalismo que tomou conta de muitos, há quem veja nesse verso que Deus vai fazer tudo o que quisermos. Mas, isso não é verdade.

O “bem” de que este verso nos fala é o “propósito” de que nos fala o restante desse verso: “daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. Mas, qual seria este propósito? A resposta está no v.29: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”.

O propósito de Deus para conosco é que sejamos “conformes à imagem de seu Filho”, e isso quer dizer, termos em nós o caráter de Cristo, o que traduzindo significa agirmos com as mesmas motivações de Cristo em todas as circunstâncias.

Atraímos para Deus pecadores que estão sofrendo quando eles olham para nós e nos veem confiantes no agir de Deus mesmo passando por terríveis dores.

Atraímos para Deus pecadores que estão cansados de não ver propósito algum para a vida deles quando eles olham para nós e veem em nós que a nossa vida tem sentido maravilho, e este sentido maravilhoso é Deus.

Atraímos para Deus pecadores que estão cansados de viverem na lama do pecado quando eles olham para nós e nos veem desfrutando da santificação e santidade que Deus promoveu e promove em nosso coração.

Mas quando esses pecadores nos veem desolados, desanimados, murmurando e lamentando das lutas dessa vida, quando eles nos veem atolados numa vida pecaminosa igual a deles fazendo as mesmas coisas que eles fazem, não os atraímos para Deus; quando muito os atraímos para o nosso grupo, pois como diz um ditado popular mineiro: “um gambá cheira o outro”.

O propósito de Deus é fazer-nos mais parecidos com Cristo, e para isso Ele opera em todas as coisas, isto é, em todas as circunstâncias.

Por fim, uma vida de santidade atraente

3) Demonstra profundo deleite na Pessoa de Cristo, Fp 1.21; 3.7

A carta aos Filipenses tem como assunto principal a verdadeira alegria do crente: Cristo.

Paulo estava preso, e embora alimentasse a expectativa de ser posto em liberdade (cf. 1.19,20) também estava preparado para morrer se assim Deus o quisesse. E por isso ele disse: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro”.

Quero me deter nessas palavras de Paulo: “para mim, o viver é Cristo”. O que essas palavras nos comunicam? Elas apontam para o fato de que Cristo era o maior bem da vida de Paulo, tanto é que em 3.7 ele diz: “Mas, o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo”. Ele se referia a toda a sua reputação como fariseu que ele passou a considerar como estrume (no grego a palavra que aparece é skybalon) depois que recebeu a Cristo em seu coração.

Enquanto não estivermos dispostos a deixar tudo para ficarmos com Cristo somente nossa santidade não atrairá nenhum pecador, não chamaremos a atenção das pessoas para as nossas boas obras (as quais consistem em mostrar Jesus como o maior tesouro que temos), e as pessoas não verão ao nosso Pai que está no céu.

Enquanto Cristo não for nosso maior tesouro, o bem mais desejado do nosso coração, nossa santidade de vida não passará de mera religiosidade. Foi justamente, por isso que os fariseus se tornaram incapazes de atraírem pecadores que estavam cansados com essa vida, e é por isso que muitas igrejas não passam de um ajuntamento de ímpios iludidos.

Conclusão

Mostremos total confiança nos métodos de Deus, pois, Ele não precisa dos nossos métodos. Mostremos certeza absoluta do propósito de Deus em nossa vida enquanto passamos pelas circunstâncias mais adversas, e, nos deleitemos somente na Pessoa de Deus, pois, Ele é o nosso maior tesouro.

Mensagem proclamada na Igreja Presbiteriana no Jardim Sul e no Acampamento das Igrejas Presbiterianas de Itapuca e 5ª IP Barra Mansa em 21/02/2012

Rev.Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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